domingo, 18 de outubro de 2026

Doutor João®Notícias, Opinião e o que quase ninguém percebe

Opinião · Análise comportamental

O que o rosto de quem pergunta revela sobre quem responde? Estudo filmou entrevistas sobre suicídio

Numa entrevista sobre risco de suicídio, quase tudo o que se registra vem da resposta: sim ou não. Pesquisadores americanos resolveram medir outra coisa, o que acontece com o rosto e a cabeça de quem faz a pergunta. O que encontraram diz algo sobre onde a informação mais importante pode estar escondida.

O problema que eles querem resolver é conhecido. Segundo o artigo, muitas pessoas que morrem por suicídio negam esses pensamentos na última conversa com um profissional de saúde, e muitos sobreviventes de tentativas graves contam que esconderam a intenção. A palavra, sozinha, é um instrumento falho.

O estudo, publicado na JMIR Formative Research em setembro de 2026, filmou 66 jovens adultos em videochamada. Metade tivera comportamento suicida no último ano, como uma tentativa ou a preparação para uma. A outra metade nunca tivera pensamento nem comportamento suicida.

Cada um passou por uma entrevista padronizada sobre o tema, conduzida por entrevistadores treinados, com mestrado. Um programa de computador analisou só os 3 primeiros minutos de cada vídeo.

O programa mede, quadro a quadro, quais músculos do rosto se mexem, como a cabeça se move e com que rapidez olhos e boca abrem e fecham. Segundo os autores, ele fez em dias o que codificadores humanos levaram mais de 2 anos para fazer.

A primeira surpresa foi o rosto dos jovens. Nenhuma expressão específica, como franzir a testa ou sorrir, separou os dois grupos, ao contrário do que os pesquisadores esperavam. Só a velocidade com que olhos e boca abriam e fechavam foi maior em quem tivera comportamento suicida.

A diferença maior estava do outro lado da câmera. Diante dos jovens com histórico, os entrevistadores moviam menos a cabeça, abriam e fechavam os olhos mais depressa e davam menos o sorriso verdadeiro, aquele que enruga os olhos.

Os autores leem isso como sinal de que o entrevistador, sem necessariamente perceber, reage ao peso do que ouve: fica mais atento, mais contido, mais tenso. É interpretação deles, não algo que o estudo mediu.

Parece um detalhe. Mas, quando um algoritmo tentou adivinhar quem era do grupo de risco, o corpo do entrevistador se saiu melhor que o do próprio jovem: reconheceu 8 em cada 10 deles, contra 6 em cada 10.

Pense num barômetro. Quem o carrega não sente a tempestade, mas o ponteiro já caiu. É uma analogia, não uma medida: o estudo não mostra que o entrevistador “sente” algo, só que seu corpo se comportou de um jeito diferente.

A parte mais intrigante veio 3 meses depois. 28 dos jovens com histórico responderam a um novo questionário, e 8 deles tinham tido algum comportamento suicida nesse intervalo.

Os entrevistadores que mais haviam sorrido só com a boca, o sorriso sem os olhos, estiveram diante dos jovens que relataram ideias mais graves ou comportamento suicida nesse período. Já a nota de risco que o entrevistador escreveu logo após a conversa não acompanhou o que veio depois. A pontuação do próprio jovem no questionário também não mostrou associação clara.

Eu leio assim: o estudo não diz que o entrevistador adivinha. Diz que o corpo dele registrou algo que a nota escrita não registrou, e que isso só apareceu porque alguém mediu. É uma leitura minha, apoiada nesses números, e eles são poucos.

Esse é o ponto em que a conta muda de figura. A análise dos 3 meses envolveu só 28 pessoas e foi feita depois dos dados prontos, sem hipótese prévia: os próprios autores a chamam de exploratória. Os movimentos usados no modelo final também foram escolhidos por separarem os grupos nesses mesmos jovens, e isso tende a deixar o acerto mais bonito do que seria numa pessoa nova.

Há outros limites. Tudo foi por videochamada, a maioria dos jovens eram mulheres, o risco no momento da entrevista variava, e o programa concordou bem com codificadores humanos quando um movimento não aconteceu, mas menos quando aconteceu. Um dos autores é cofundador e cientista-chefe de uma empresa de IA, a Deliberate AI, segundo o próprio artigo; o financiamento veio do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos e de verbas acadêmicas.

Nada disso é um teste para uso no consultório, e muito menos um jeito de alguém adivinhar o risco de outra pessoa pelo rosto. O que o estudo oferece é uma pista sobre onde olhar.

A mudança maior, na minha leitura, é tratar a reação de quem escuta como dado, e não como ruído a ser controlado. Até aqui, a avaliação mede o que o paciente diz. Se um programa gratuito e de código aberto já mede o resto em dias, a pergunta deixa de ser se há informação ali e passa a ser como usá-la sem transformar o rosto de alguém em suspeita.

Resumo: em 66 jovens, o corpo de quem fazia a pergunta separou o grupo de risco melhor que o de quem respondia, e o sorriso só de boca acompanhou quem piorou 3 meses depois, enquanto a nota escrita não. Ainda não se sabe se isso se repete em grupos maiores, em consultórios reais e fora da videochamada. Mas medir o que o corpo de quem escuta registra é um passo novo, e a minha aposta é que vamos ver muito mais disso.

Se você ou alguém que você conhece está pensando em suicídio, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.

Os números, para quem quer conferir

  • Amostra: 66 jovens adultos analisados (33 com comportamento suicida no último ano e 33 sem histórico), de 18 a 26 anos. As análises do entrevistador e dos modelos usaram 65 vídeos, porque 1 não pôde ser acessado.
  • Pontuação de depressão sozinha: acertou o grupo de 52 de 65 jovens (80%) e reconheceu 25 de 33 do grupo de risco.
  • Depressão somada aos movimentos escolhidos: 56 de 65 (86%) e 29 de 33 do grupo de risco.
  • Só os movimentos do entrevistador (todos os medidos): 50 de 65 (77%) e 27 de 33 do grupo de risco.
  • Só os movimentos do jovem (todos os medidos): 44 de 65 (68%) e 19 de 33 do grupo de risco.
  • Seguimento: 28 dos 33 jovens do grupo de risco responderam após 3 meses; 8 (29%) relataram comportamento suicida no período.
  • Sorriso só de boca do entrevistador: associação moderada com a gravidade das ideias aos 3 meses (r = 0,38; P = 0,04) e com comportamento suicida (P = 0,02).
  • Nota de risco do entrevistador, de 1 a 5: sem associação com o comportamento (P = 0,22) nem com as ideias aos 3 meses (P = 0,86).
  • Programa x codificadores humanos: 26 vídeos (cerca de 20%) conferidos; só 5 movimentos do rosto tiveram concordância suficiente para entrar na análise.
  • Planejamento: as hipóteses foram registradas depois da coleta dos dados.

Fontes

Fontes

  1. Gratch, Li, Zhu, et al. Using Automated Coding of Nonverbal Behavior During a Suicide Assessment to Inform Risk Detection: Mixed Cross-Sectional and Exploratory Prospective Study. JMIR Formative Research. 16 set. 2026. DOI: 10.2196/85589. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Não se automedique e procure sempre um profissional de saúde.